A Nascente - Ayn Rand

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Um arquiteto e suas convicções imutáveis. Essa é a história de A Nascente, uma história que fala sobre ser humano no sentido mais rígido que isso pode ser. Sem interferências alheias, sem discursos mundanos e sem falsas demagogias. Ser o que é e assumir os riscos dessa decisão.

O livro de Ayn Rand é dividido em quatro partes que sustentam o objetivo da romancista-filósofa de mostrar que o mundo é feito de pessoas previsíveis e quando a imprevisibilidade de uma se destaca ela é vista como uma ameaça, pois é um perigo para as doutrinas pré-estabelecidas. Cada parte é representada por uma personagem central que une todas as características dos integrantes do seu grupo. Vou contar um pouco sobre cada um deles na ordem que aparece no livro. 

Peter Keating

Peter Keating é um parasita. Na definição mais pejorativa que pudermos atribuir, beirando a literalidade. Ele e Howard Roark estudaram na mesma universidade, mas Peter Keating obteve seu diploma praticamente por tabela. Roark desenhava seus projetos e Keating levava o crédito. Roark nunca se importou – e nem se importará ao longo do livro – pois entende que o prejuízo de sugar os outros é moralmente maior para o parasita do que para o hospedeiro. Peter é ganancioso, egoísta e vaidoso ao extremo. O julgamento alheio é tão importante que ele não mede esforços para alcançar o sucesso e a fama. Peter Keating se alimenta de elogios.

Ellsworth Toohey

Um colunista de um grande jornal convicto de que o caminho para o poder está em convencer as massas de que juntas elas são mais fortes, quando na verdade essa união forma um pescoço pronto para ser degolado. Toohey visa o topo e pretende chegar lá usando a cabeça das pessoas como degraus. Ele se esconde atrás da alcunha de benfeitor e homem preocupado com as causas sociais ciente de que esse é um disfarce convincente, pois os indivíduos precisam se agarrar à ideia de que alguém no mundo luta por eles. Toohey é desprezível.

Gail Wynand 

Wynand é dono do grande jornal onde Toohey e tantos outros personagens trabalham. É o que chega mais perto de compreender Roark e, por isso, será um aliado seu da metade do livro pra lá. Gail construiu seu império do zero, com firmeza e determinação. Mas isso não quer dizer necessariamente que ele é um homem íntegro e merecedor de aplausos. Diferente de Toohey, comprador de mentes com palavras, Wynand as comprava com dinheiro mesmo. Usava seu poder monetário para tirar das pessoas opções e a elas não restava senão fazer suas vontades. E isso ia desde mulheres a profissionais que ele contratava para trabalhar no seu jornal. Wynand nunca aceitou um não. Mas também nunca duvidou de si. E aqueles que no meio da estrada duvidaram se arrependeram amargamente.

Howard Roark

Howard Roark tinha 22 anos quando foi expulso da faculdade de Arquitetura por não seguir a linha de pensamento de seus professores e da direção da Universidade. Quando o reitor disse que poderia dar-lhe uma nova chance se ele voltasse atrás nos seus projetos, Roark respondeu mais ou menos assim: “Eu vim para aprender a engenharia dos prédios, a trabalhar com cimentos e vergalhões, agora que já aprendi não tenho mais nada para fazer aqui”. E ainda faltava um ano para formatura. O que Roark quis dizer é que ele já tinha absorvido aquilo que não nascera com ele, o conhecimento técnico, como meter a mão na massa. O resto, a capacidade criativa, ele já tinha e era inovadora. Howard nunca se submeteu a gostos estranhos ao seu, nunca fez senão aquilo que queria e sempre assumiu a responsabilidade disto sem nenhum remorso ou ponta de arrependimento. Ele nunca se importou se sua postura agradava ou não alguém. Seus clientes diziam como queriam seus prédios mas eram proibidos de mover uma telha fora daquilo que o arquiteto havia projetado. Roark pregava ao máximo a individualidade, a liberdade de criação, a prerrogativa de que pensar por si só era muito mais vantajoso que seguir uma linha coletiva de pensamento. Ele é o tipo de homem que Toohey quer destruir. Roark não trabalhava em equipe, não precisava. Recusou projetos milionários quando mal tinha como pagar suas contas por não aceitar as condições que o cliente impunha para o trabalho. Roark era irredutível. Tão convicto de si mesmo a ponto de estuprar uma mulher com a certeza de aquilo seria o despertar de uma paixão avassaladora e submissa onde ela seria para sempre sua. A lealdade ferrenha de Howard Roark lhe trouxe muitos problemas, entre eles alguns processos judiciais e a destruição de um império. Mas não espere para vê-lo pedir desculpas. Não é do seu feitio. 

Outra personagem importante que não está encabeçada em títulos é Dominique Francon. Uma jornalista que também pouco se importa se é uma mulher tradicional ao seu tempo e por isso não mede suas atitudes visando agradar alguém. Antes de ser violentada por Roark ela já sabia que ele seria sua cruz pelo resto da vida, e que aquele cabelo ruivo seria sua redenção e ao mesmo tempo seu combustível para viver. Dominique sacrificou todos os seus princípios por Roark, casou-se com homens que desprezava, perdeu seu emprego, foi mal vista pela sociedade, mas tudo de cabeça erguida e com sua elegância característica. Por mais que pareça absurdo, Dominique e Roark realmente se amavam e apesar de um romance às avessas, era um romance. 

A Nascente, por sua escritora, é um livro que mescla filosofia, política, crenças e teorias sociológicas. Arrisco dizer que uma leitura só não é suficiente para compreender tudo que a autora quis debater com essa história. Em muitos trechos é um pouco difícil acompanhar o raciocínio, em outros o discurso é tão claro que não tem como não compreender e por vezes concordar. Apesar de ter sido escrito nos anos 40 é um livro bastante atual. Boa parte das falas pode ser reproduzida com propriedade sem medo de estar falando baboseiras. Também depende muito do posicionamento de cada um e como a gente se enxerga no mundo, mas no geral é uma bela de uma reflexão. 

Geralmente crio apreço por um personagem específico nos livros que leio, mas nesse foi impossível. Em todos há tantos defeitos gritantes e tantas atitudes condenáveis que senti pena das pessoas que vivem no mundo de A Nascente. Aí lembrei que o mundo real é igualmente inconsolável. 



Sobre o autor
Escritora e filósofa, Ayn Rand nasceu em 1905 em São Petersburgo, Rússia. Aos 9 anos, decidiu se tornar autora de livros de ficção. Ayn Rand começou a escrever A Nascente em 1935. Levou sete anos para ser escrito e foi inicialmente rejeitado por doze editoras, sendo finalmente aceito e publicado em 1943. A Nascente fez história e acabu se tornando uma das obras mais vendidas no mundo graças ao boca a boca dos leitores, dois anos mais tarde, e consagrando sua autora como porta-voz do individualismo.


Título: A Nascente
Autor: Ayn Rand
Editora: Arqueiro
Ano: 2008
Páginas: 816
Avaliação do Skoob: 4.4
Avaliação do Blog: 4.0

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