G. - John Berger

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Um jovem europeu no começo do século XX, rico, sedutor e com um vasto apetite sexual terá suas aventuras narradas neste livro que leva o seu nome e não economiza palavras para descrever com fidelidade as artimanhas de seu protagonista. G., como é simplesmente conhecido, nasceu de um caso extraconjugal entre uma americana e um italiano. Criado em uma fazenda por uma prima e um primo de sua mãe, ele cresceu sem a figura materna por perto e só conheceu o seu pai quando já passava dos dez anos de idade. Todas as suas experiências da infância vão delinear o adulto que G. se tornará e o levará aos ensaios mais peculiares dos seus relacionamentos carnais e amorosos.

O narrador que trata de apresentar-nos esse ilustre personagem faz de uma maneira admirável e até então jamais lida por mim. Ele começa contando sobre o pai de G., sua mulher e sua amante, e de como esse caso resultou em um bebê que Umberto (o pai) tinha certeza que seria homem e queria muito que se chamasse Geovanni, mantendo assim um pouco de suas raízes italianas bem fortes. Logo depois, o menino já aparece sob a tutela dos primos de sua mãe, uma mulher ocupada com os engajamentos políticos e sem tempo para a maternidade integral. 

Dessa relação, G. terá a sua primeira experiência sexual com Beatrice, a mulher que o criou, mas que durante esse tempo não indicou nenhum laço materno e assim se esquivou de uma relação teoricamente incestuosa. Tudo aconteceu “naturalmente”. G. era um adolescente de quinze anos e Beatrice uma jovem senhora recém-viúva que tinha acabado de voltar a viver em sua antiga casa, na fazenda. 

Esse primeiro ato carnal – e todos os outros que virão pela frente – são narrados com muita sensibilidade e entusiasmo. Não de uma maneira piegas, mas sim muito real e até mesmo palpável, eu diria. As nomeações são feitas sem delongas e nenhum passo deixa de ser descrito. 

“A figura mítica e familiar e a mulher que ele já chamara de tia Beatrice se reúnem na mesma pessoa. O encontro destrói ambas completamente. Nenhuma delas jamais existirá de novo. [...] Ela abre as penas. Ele empurra o dedo em sua direção. Muco quente encobre o dedo dele de modo tão apertado como se fosse uma nova pele. Quando ele mexe o dedo, a superfície do líquido englobante se estica – às vezes a ponto de se romper. Quando se dá o rompimento, ele tem uma sensação de frio naquele lado do dedo – antes que a pele úmida e quente torne a se formar sobre o lugar do rompimento.
Ela segura seu pênis com ambas as mãos como se fosse uma garrafa que ela estivesse prestes a despejar em sua própria direção.
Ela se move para o lado para ficar debaixo dele.
Sua boceta começa nos dedos dos pés; seus seios estão dentro dela e seus olhos também; foi envolta nela”.

Observem que apesar de ser uma cena a priori erótica é possível penetrar na mente e nos sentimentos dos personagens envolvidos. A figura de Beatrice será a referência de G. dali para frente. Todas as mulheres com as quais ele se relacionar serão comparadas a ela, a quem ele mesmo conceitua como “completa”.

Por trás dos romances de G. o mundo está em guerra e há conflitos políticos por toda a parte. Eles são o pano de fundo dessa história. E apesar de nosso protagonista ser um galanteador assumido, além de Beatrice, apenas mais dois ou três casos serão contados com a mesma profundidade. A camareira virgem que estava prometida a um noivo, mas mesmo assim se rendeu aos encantos de G., a esposa de um homem que quase o matou quando soube da traição, e a mulher de um banqueiro austríaco que teve a permissão de seu marido para se tornar amante dele. A todas elas G. declarou seu amor como parte do seu jogo de sedução. 

G. é um homem pouco preocupado com as questões maiores que circundam o mundo, para ele os mistérios das mulheres já são atrativos o bastante e sua sexualidade aflorada é o que atesta sua vitalidade. A descrição dos acontecimentos, como já mencionei, é fantástica do ponto de vista literário. As figuras de linguagem, as reflexões, e um vocabulário sem muitos enfeites, porém organizados em períodos que compõem cada página de maneira envolvente e intensa. Os diálogos não são marcados por travessões ou aspas, o que pode causar um pouco de confusão no começo, mas depois acostuma. As interrupções do passado, ou futuro, no tempo presente da narração causam a sensação de que “trocaram de canal” e o narrador muda de cena entre um parágrafo e outro sem nem mesmo avisar. Contudo, a construção da obra por esse formato faz de G. um livro sem fórmula que leva o leitor à estranha impressão de estar diante de uma intimidade não concedida pelos personagens, porém tolerada. Portanto, temos aqui uma série de páginas preciosas que entre ler e não ler, é muito melhor ler. 

Sobre o autor
John Berger nasceu em Londres, em 1926. Conhecido por seus romances e contos, Berger também escreveu obras de não ficção, entre elas Modos de ver. Em 1972, ganhou o Booker Prize com o romance G. Em 1962, o autor deixou a Grã-Bretanha em caráter definitivo e passou a viver numa pequena aldeia nos Alpes Franceses.


Título: G.
Autor: John Berger
Editora: Rocco
Ano: 2005
Páginas: 341
Avaliação do Skoob: 3.0
Avaliação do Blog: 4.0

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