Boca do Inferno - Ana Miranda

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Um crime, um poeta, um padre e uma moça inocente e bondosa na Salvador do século XVII é a receita desse livro que mistura ficção e história de uma maneira muito original. Em uma cidade repleta de malfeitores e com conflitos políticos por todos os lados, um grupo de oposição promove um atentado ao alcaide-mor e desperta a fúria do governador. Sedento por vingança, ou justiça, o Braço de Prata, como era chamado, não mede esforços para perseguir e prender os culpados. No meio do fogo cruzado, uma moça simples e até então anônima, toma uma atitude que vai definir para sempre os rumos de sua vida. 

Ana Miranda fez um belo trabalho de pesquisa e construção da narrativa ficcional com os fatos históricos desse período do Brasil. Gregório de Matos, o famoso Boca do Inferno – assim chamado por não ter papas na língua em seus poemas – é um dito fanfarrão que só pensa em dormir com todas as mulheres que cruzam seu caminho e satirizar com seus versos a situação política do país ou suas inimizades corriqueiras. 

Já o Padre Antônio Vieira é aqui um “homem de Deus” preocupado com questões além da religião. Em seu personagem entra suas lutas e seu papel na vida das minorias sociais de uma cidade que ainda vivia com os resquícios da invasão holandesa e precisava conviver com todo tipo de gente, desde a alta sociedade até os bêbados, prostitutas e criminosos que perambulavam por suas ruas.

Depois que o alcaide-mor Teles é assassinado e tem sua mão decepada pela facção dos Ravasco, a caçada começa e o fim não está próximo. Todos são perseguidos e nem a proteção da igreja impede que alguns deles sejam assassinados ou presos. A mão da vítima vai parar em poder de Maria Berço, a dama de companhia da filha de Bernardo Ravasco, que por pedido do seu patrão promete se livrar dela o mais rápido possível. Porém, o anel valioso que acompanhava os dedos do membro-defunto tem um destino diferente do prometido, e quando esta informação chega aos ouvidos do governador a pobre Maria Berço se vê em maus lençóis. 

Gregório de Matos, como não poderia deixar de ser, acaba nutrindo uma paixão avassaladora por Maria Berço. Mas esse projeto de romance é um pormenor em meio aos outros acontecimentos. O valor desta obra está na descrição minuciosa do modo de vida daquela época e, aliada à linguagem rebuscada, faz de Boca do Inferno um romance histórico digno dos olhos mais apaixonados pela literatura nacional. A sensação de imersão no passado é inevitável e não se assuste com o vocabulário de baixo calão que encontrar pelas páginas, principalmente quando o poeta estiver com a palavra. Essa é a sua maior característica, não obstante lhe rendeu o apelido que nomeia o livro e atravessou os séculos. 

Sobre o autor 
Ana Maria Nóbrega Miranda nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1951. Cresceu em Brasília e mora no Rio de Janeiro desde 1969. 


Título: Boca do Inferno
Autor: Ana Miranda
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Páginas: 336
Avaliação do Skoob: 3.4
Avaliação do Blog: 3.0

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