romance

Um Amor de Cinema - Victoria Van Tiem

08:11


O que fazer quando você tem um noivo perfeito, está prestes a se casar, e um amor do passado surge repentinamente para balançar seu coração? Não bastasse essa confusão amorosa, Kensington ainda precisa lutar para manter seu emprego, lidar com a falta de atenção da família e encaixar sua história dentro dos roteiros de cinema que rodeiam sua vida.

Kensington Shaw, ou simplesmente Kenzi, é uma mulher beirando os 30 anos, inteligente, bonita, bem-sucedida, apaixonada por arte e cinema. Ela está noiva de Bradley, um colega de trabalho bonitão, gentil e caidinho por ela. Aparentemente é o cenário perfeito para a felicidade, se não fosse Ren, a cunhada centro-das-atenções de sua casa, e a constante sensação de que falta algo mais.

Mas o que falta para uma mulher com tantos elementos favoráveis? Talvez Um Amor de Cinema

Quando Kensington recebe a notícia de que seu emprego está ameaçado pela situação financeira da agência onde trabalha, e que só um grande contrato pode salvá-lo, ela se prepara para convencer um cliente importante de que a sua empresa é a certa para tocar seu negócio: um restaurante com a proposta de agregar um cinema à boa gastronomia. O que ela não sabe é que esse cliente é seu ex-namorado Shane.

Shane foi o primeiro amor de Kensington, um amor que começou na faculdade e teria tudo para ser próspero se ele não a tivesse traído e depois se mudado para outro país. Apesar dos sete anos que se passaram, ela ainda sente a mágoa desse término doloroso. Tudo fica ainda mais difícil quando Shane tenta se aproximar, com seu charme característico, e ela, ao tentar fugir, lembra-se de que precisa dele para continuar empregada. Afinal, uma grande festa de casamento precisa de dinheiro para ser produzida.

Em troca do contrato, Shane propõe algo curioso: ele e Kensington precisam reproduzir cenas de dez filmes (dez comédias-romântica que não por acaso marcaram o relacionamento deles dois) e através dessa experiência construir o cenário do restaurante-cinema que ele está montando. Ou isso, ou nada. Kensington está em apuros, pois ao desenrolar desta ideia seus antigos sentimentos vem à tona e Shane está disposto a reconquistá-la e dar-lhe um romance como os dos filmes que ela tanto gosta.

Antes de mais nada gostaria de deixar meu parecer sobre comédia-romântica literária: prefiro em filmes. Por que? Não que eu não goste, muito pelo contrário, mas pelo simples motivo de que as comédias-romântica são todas iguais, e o que difere uma das outras, na minha opinião, são os atores, a trilha sonora, os cenários, etc. Esse tipo de elemento não é perceptível nos livros. Neles temos a mesma receita de bolo batida e levada ao forno para crescer. E em Um Amor de Cinema não é diferente. Kensington é a moça com uma vida aparentemente ideal, comprometida com um carinha legal e com uma paixão platônica pelo outro cara que não parece bom, mas que do meio do final fica apaixonante. 

E quando eu friso do meio para o final quero dizer que até o meio a narrativa é bem enfadonha. Começando pela constante carência de atenção que a protagonista sofre ao achar que sua família liga mais para a gravidez da cunhada do que para seu próprio casamento. 

A coisa toda só começa a ficar minimamente interessante quando a amiga vira iniamiga e então surge uma antagonista bem mal construída, mas que estava lá para fazer seu papel de vilã. Aliás, todos os personagens foram mal elaborados. Senti falta de saber mais como eles são, de onde vieram, como chegaram até lá, e por que agem como adolescentes o tempo todo. Ok, a ideia de colocar os filmes que todo mundo viu e adora foi interessante, porém o modo como eles foram inseridos na história foi ruim. Shane e Kensington tentando reproduzir as cenas foi tão piegas e mal narrado que me perguntei por que a autora não construiu logo as personagens no ensino médio, como acontece em Namorado de Aluguel – que não é lá essas coisas, mas pelo menos suas ações têm mais sentido por eles terem 16 anos de idade e não 30.

Além disso, o combinado foi reviver os 10 filmes para só então o contrato ser assinado e Kensington manter seu emprego. No fim das contas, só metade dos filmes da lista apareceram e pra mim isso não fez muito sentido também. 

Mas como sempre acontece quando eu acho um livro péssimo, fica aqui no último parágrafo um ponto positivo garimpado com muito suor: a referência dos filmes é legal durante a leitura e tenho certeza que um, ou mais de um, está na sua lista de comédias-romântica preferida. Eu encontrei De Repente Trinta e Três Vezes Amor. E vocês?


Sobre o autor
Victoria Van Tiem é escritora, artista, faixa preta, mãe, esposa e cuidadora relutante de um porco barrigudo, Pobby. Quando não está escrevendo, bancado a motorista de seus filhos adolescentes ou mantendo o porco longe do jardim dos vizinhos, Victoria se entrega a seus dois passatempos favoritos: um bom livro e filmes românticos.



Título: Um Amor de Cinema
Autor: Victoria Van Tiem
Editora: Verus
Ano: 2014
Páginas: 294
Avaliação do Skoob: 4.2
Avaliação do Blog: 1.0

não ficção

O dono do morro - Misha Glenny

19:17


Subiu o morro como uma pessoa honesta e saiu de lá como integrante do tráfico na Rocinha. Essa é a história de Antônio Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, o homem que em poucos anos depois dessa fatídica subida tornou-se o traficante mais procurado do Rio de Janeiro. Uma história real que envolve amor pela família, sacrifícios, pobreza, corrupção e muitos outros elementos que assolam os cantos do Brasil.

Quando um pai de família, morador de um bairro pobre, desempregado, se vê diante da filha gravemente doente e necessitada de tratamento, e da dívida de 20 mil reais que as circunstâncias da doença trouxeram, quais são suas opções? Para Antônio Bonfim, depois de ponderada a escassez de alternativas, a saída foi pedir um empréstimo para o comandante do tráfico da Rocinha, lugar onde ele, a mulher e a filha dividiam um barraco úmido e malcheiroso. Lulu, o dono do morro na época, não pestanejou em emprestar o dinheiro. Em troca Antônio ofereceu seus serviços no grandioso esquema de venda de drogas.

Misha Glenny, o autor desse livro, fez um trabalho jornalístico minucioso para contar essa história. Desde as dez visitas feitas a Nem no presídio de Campo Grande, onde está preso desde 2011, até as entrevistas com moradores da favela, a família de Nem, os inimigos, e os policiais envolvidos, a narrativa foi construída com base em depoimentos vindos todos os ângulos. Além do desafio de um estrangeiro – Misha é inglês – de aprender o idioma, a história e a política do Brasil, para contextualizar os acontecimentos.

O primeiro capítulo, sobre a prisão de Nem, um acontecimento amplamente disputado entre todas as esferas da polícia do Rio de Janeiro, introduz o livro. Os capítulos seguintes mesclam um pouco do passado dele, como sua família chegou à Rocinha, quem foi seu pai, sua mãe, e a consolidação do crime organizado no Rio de Janeiro desde meados dos anos 60, 70. Grandes chefes do tráfico são citados e essa linha do tempo é importante para entender como funcionam os cartéis e de que maneira Nem acabou como um dos escolhidos para chefiar os negócios na Rocinha. 

Em todas as etapas da narrativa o autor vai nos deixando a par de elementos que foram – e são – fundamentais para o funcionamento das organizações criminosas, desde a distribuição dos migrantes que se amontoaram e construíram as favelas, mais especificamente a Rocinha, passando pela localização geográfica que permite a clientela fiel, até a corrupção cancerígena da segurança pública. 

Diante de todos os horrores cometidos em volta do tráfico de drogas, o jornalista, porém, tem o cuidado de mostrar o lado, digamos, real de Nem, e como as circunstâncias o fizeram chegar onde ele chegou. Em O Dono do Morro nos é apresentado um homem sempre preocupado com o bem estar da família e da comunidade onde morava, que se diz contra a violência e afirma que seu interesse sempre foi manter o objetivo principal de um cartel de drogas: vender e lucrar. 

Longe de inocentá-lo, Misha é sensível na manipulação das informações que obtém e deixa claro o que é certeza e o que dúvida na checagem e cruzamento dos depoimentos ouvidos. Ele ainda critica muitas vezes a mídia local e o sensacionalismo visível da imprensa brasileira. A narrativa não se caracteriza exatamente como uma reportagem, mas como um relato de um estrangeiro que chegou ao Brasil e se viu instigado a descobrir como o crime funciona por aqui. Em suas investigações ele descobre um país é deficiente em todos os lados, onde a pobreza, o descaso, a desigualdade social, tudo colabora para o aumento da violência e da destruição de seres humanos que só querem viver com o mínimo de dignidade. Ao ouvir depoimentos de moradores que diziam se sentir mais seguros com o comando de Nem no morro do que com a polícia e suas pacificações, é horripilante imaginar como o conceito de segurança se adapta aos meios. Na falta de opções – como nos primórdios da vida no tráfico do outrora Antônio Bonfim Lopes e de tantos outros jovens que veem no crime a única de oportunidade de renda – não resta outra coisa a não ser se render ao sistema. 



Sobre o autor

Misha Glenny nasceu em 1958. Jornalista e historiador britânico, trabalhou como corresponde do jornal The Guardian e da emissora BBC na Europa Central. Publicou McMáfia e Mercado Sombrio.



Título: O Dono do Morro
Autor: Misha Glenny
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2016
Páginas: 360
Avaliação do Skoob: 4.5
Avaliação do Blog: 4.0

romance

A Nascente - Ayn Rand

06:11


Um arquiteto e suas convicções imutáveis. Essa é a história de A Nascente, uma história que fala sobre ser humano no sentido mais rígido que isso pode ser. Sem interferências alheias, sem discursos mundanos e sem falsas demagogias. Ser o que é e assumir os riscos dessa decisão.

O livro de Ayn Rand é dividido em quatro partes que sustentam o objetivo da romancista-filósofa de mostrar que o mundo é feito de pessoas previsíveis e quando a imprevisibilidade de uma se destaca ela é vista como uma ameaça, pois é um perigo para as doutrinas pré-estabelecidas. Cada parte é representada por uma personagem central que une todas as características dos integrantes do seu grupo. Vou contar um pouco sobre cada um deles na ordem que aparece no livro. 

Peter Keating

Peter Keating é um parasita. Na definição mais pejorativa que pudermos atribuir, beirando a literalidade. Ele e Howard Roark estudaram na mesma universidade, mas Peter Keating obteve seu diploma praticamente por tabela. Roark desenhava seus projetos e Keating levava o crédito. Roark nunca se importou – e nem se importará ao longo do livro – pois entende que o prejuízo de sugar os outros é moralmente maior para o parasita do que para o hospedeiro. Peter é ganancioso, egoísta e vaidoso ao extremo. O julgamento alheio é tão importante que ele não mede esforços para alcançar o sucesso e a fama. Peter Keating se alimenta de elogios.

Ellsworth Toohey

Um colunista de um grande jornal convicto de que o caminho para o poder está em convencer as massas de que juntas elas são mais fortes, quando na verdade essa união forma um pescoço pronto para ser degolado. Toohey visa o topo e pretende chegar lá usando a cabeça das pessoas como degraus. Ele se esconde atrás da alcunha de benfeitor e homem preocupado com as causas sociais ciente de que esse é um disfarce convincente, pois os indivíduos precisam se agarrar à ideia de que alguém no mundo luta por eles. Toohey é desprezível.

Gail Wynand 

Wynand é dono do grande jornal onde Toohey e tantos outros personagens trabalham. É o que chega mais perto de compreender Roark e, por isso, será um aliado seu da metade do livro pra lá. Gail construiu seu império do zero, com firmeza e determinação. Mas isso não quer dizer necessariamente que ele é um homem íntegro e merecedor de aplausos. Diferente de Toohey, comprador de mentes com palavras, Wynand as comprava com dinheiro mesmo. Usava seu poder monetário para tirar das pessoas opções e a elas não restava senão fazer suas vontades. E isso ia desde mulheres a profissionais que ele contratava para trabalhar no seu jornal. Wynand nunca aceitou um não. Mas também nunca duvidou de si. E aqueles que no meio da estrada duvidaram se arrependeram amargamente.

Howard Roark

Howard Roark tinha 22 anos quando foi expulso da faculdade de Arquitetura por não seguir a linha de pensamento de seus professores e da direção da Universidade. Quando o reitor disse que poderia dar-lhe uma nova chance se ele voltasse atrás nos seus projetos, Roark respondeu mais ou menos assim: “Eu vim para aprender a engenharia dos prédios, a trabalhar com cimentos e vergalhões, agora que já aprendi não tenho mais nada para fazer aqui”. E ainda faltava um ano para formatura. O que Roark quis dizer é que ele já tinha absorvido aquilo que não nascera com ele, o conhecimento técnico, como meter a mão na massa. O resto, a capacidade criativa, ele já tinha e era inovadora. Howard nunca se submeteu a gostos estranhos ao seu, nunca fez senão aquilo que queria e sempre assumiu a responsabilidade disto sem nenhum remorso ou ponta de arrependimento. Ele nunca se importou se sua postura agradava ou não alguém. Seus clientes diziam como queriam seus prédios mas eram proibidos de mover uma telha fora daquilo que o arquiteto havia projetado. Roark pregava ao máximo a individualidade, a liberdade de criação, a prerrogativa de que pensar por si só era muito mais vantajoso que seguir uma linha coletiva de pensamento. Ele é o tipo de homem que Toohey quer destruir. Roark não trabalhava em equipe, não precisava. Recusou projetos milionários quando mal tinha como pagar suas contas por não aceitar as condições que o cliente impunha para o trabalho. Roark era irredutível. Tão convicto de si mesmo a ponto de estuprar uma mulher com a certeza de aquilo seria o despertar de uma paixão avassaladora e submissa onde ela seria para sempre sua. A lealdade ferrenha de Howard Roark lhe trouxe muitos problemas, entre eles alguns processos judiciais e a destruição de um império. Mas não espere para vê-lo pedir desculpas. Não é do seu feitio. 

Outra personagem importante que não está encabeçada em títulos é Dominique Francon. Uma jornalista que também pouco se importa se é uma mulher tradicional ao seu tempo e por isso não mede suas atitudes visando agradar alguém. Antes de ser violentada por Roark ela já sabia que ele seria sua cruz pelo resto da vida, e que aquele cabelo ruivo seria sua redenção e ao mesmo tempo seu combustível para viver. Dominique sacrificou todos os seus princípios por Roark, casou-se com homens que desprezava, perdeu seu emprego, foi mal vista pela sociedade, mas tudo de cabeça erguida e com sua elegância característica. Por mais que pareça absurdo, Dominique e Roark realmente se amavam e apesar de um romance às avessas, era um romance. 

A Nascente, por sua escritora, é um livro que mescla filosofia, política, crenças e teorias sociológicas. Arrisco dizer que uma leitura só não é suficiente para compreender tudo que a autora quis debater com essa história. Em muitos trechos é um pouco difícil acompanhar o raciocínio, em outros o discurso é tão claro que não tem como não compreender e por vezes concordar. Apesar de ter sido escrito nos anos 40 é um livro bastante atual. Boa parte das falas pode ser reproduzida com propriedade sem medo de estar falando baboseiras. Também depende muito do posicionamento de cada um e como a gente se enxerga no mundo, mas no geral é uma bela de uma reflexão. 

Geralmente crio apreço por um personagem específico nos livros que leio, mas nesse foi impossível. Em todos há tantos defeitos gritantes e tantas atitudes condenáveis que senti pena das pessoas que vivem no mundo de A Nascente. Aí lembrei que o mundo real é igualmente inconsolável. 



Sobre o autor
Escritora e filósofa, Ayn Rand nasceu em 1905 em São Petersburgo, Rússia. Aos 9 anos, decidiu se tornar autora de livros de ficção. Ayn Rand começou a escrever A Nascente em 1935. Levou sete anos para ser escrito e foi inicialmente rejeitado por doze editoras, sendo finalmente aceito e publicado em 1943. A Nascente fez história e acabu se tornando uma das obras mais vendidas no mundo graças ao boca a boca dos leitores, dois anos mais tarde, e consagrando sua autora como porta-voz do individualismo.


Título: A Nascente
Autor: Ayn Rand
Editora: Arqueiro
Ano: 2008
Páginas: 816
Avaliação do Skoob: 4.4
Avaliação do Blog: 4.0

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